Por décadas, a espinha dorsal da internet global — o chamado backbone — esteve firmemente ancorada à infraestrutura terrestre: cabos submarinos, data centers e redes ópticas. Mas essa realidade está em transformação. Empresas e agências espaciais ao redor do mundo trabalham na criação de um backbone orbital, com satélites interligados por comunicação óptica a laser, capaz de transmitir dados diretamente no espaço, sem depender de conexões com a Terra.
Constelações em órbita: Starlink, Kuiper e OneWeb
O projeto mais avançado nesse campo é o Starlink, da SpaceX. Com mais de 6 mil satélites em operação, a empresa já testa e implementa enlaces inter-satélite por laser (ISLs) em parte de sua frota. A Amazon, com o Project Kuiper, e a britânica OneWeb seguem o mesmo caminho. Os satélites dessas constelações são posicionados em órbita baixa (LEO), o que reduz a latência e aumenta a eficiência na transmissão de dados.
A comunicação a laser oferece diversas vantagens: maior largura de banda, menor interferência, maior velocidade e segurança. Satélites com essa tecnologia conseguem trocar dados entre si a altíssimas taxas — alguns protótipos já alcançaram velocidades superiores a 200 Gbps, como demonstrado por experimentos da NASA em parceria com o MIT.
A importância dos terminais ópticos
O backbone orbital depende diretamente dos chamados terminais de comunicação óptica, que permitem que um satélite envie e receba sinais de outro com precisão milimétrica. Esses terminais estão sendo desenvolvidos por empresas como Transcelestial, General Atomics, CACI e Viasat, além de instituições de pesquisa como o Fraunhofer Institute, na Alemanha.
Recentemente, o Space Systems Command, braço da Força Espacial dos Estados Unidos, iniciou a Fase 2 de testes dos seus próprios protótipos, com o objetivo de implementar uma rede militar de dados via laser no espaço.
Desafios tecnológicos e políticos
Apesar dos avanços, a construção do backbone orbital ainda enfrenta vários desafios:
- Precisão técnica: a comunicação laser exige alinhamento e rastreamento de altíssima precisão entre satélites em movimento.
- Custos elevados: o lançamento, operação e manutenção de milhares de satélites com tecnologia laser ainda representa um investimento bilionário.
- Regulação internacional: as órbitas e frequências de operação são limitadas e disputadas, exigindo coordenação entre países e empresas.
- Lixo espacial: o aumento da quantidade de objetos em órbita gera risco de colisões e impõe preocupações ambientais.
- Falta de padronização: não há protocolos universais para comunicação entre constelações diferentes, dificultando a interoperabilidade.
A infraestrutura que já está em operação
Além das iniciativas privadas, agências como a Agência Espacial Europeia (ESA) já operam desde 2016 sistemas como o EDRS, com links ópticos entre satélites em diferentes órbitas. A NASA também testa comunicações ópticas no espaço com os projetos LCRD e TBIRD, este último responsável por atingir a marca histórica de 200 Gbps de transferência em órbita.
A tendência é que esses testes evoluam para sistemas completos de backbone no espaço — capazes de fornecer conexão global, autônoma e descentralizada, inclusive em regiões remotas ou afetadas por catástrofes.
O céu como rede global
A criação de um backbone orbital representa uma transformação profunda na infraestrutura digital do planeta. Com milhares de satélites conectados por feixes de laser, a internet poderá ser transmitida de forma independente da Terra, reduzindo vulnerabilidades e expandindo o alcance da conectividade.
Ainda faltam avanços técnicos, acordos regulatórios e padronização global. Mas a arquitetura já começou a ser construída — e o céu, aos poucos, está se tornando o novo território das redes de dados.
