Estive pensando sobre a anatomia da fake news, e o ponto de partida é saber que toda comunicação humana tem vários processos dentro de um processo. Para realmente entender a mensagem, é preciso distinguir as etapas — só então se chega a um entendimento dos fatos e ao verdadeiro objetivo da comunicação.
Não existe fake news sem um fato. E é justamente isso que as torna perigosas. A desinformação mais eficiente não vem da rua, do tio do WhatsApp ou do influenciador distraído. Ela nasce nos bastidores de redações, gabinetes e núcleos ideológicos que entendem de linguagem, psicologia social e timing.
É fabricada por profissionais com domínio da narrativa , da escrita e se espalha por canais cuidadosamente escolhidos. A mentira só se torna “verdade para as massas” quando é construída por quem sabe manipulá-las.
As fake news populares — criadas por cidadãos comuns — até circulam nas redes sociais, mas tendem a ter vida curta. Quando não há um fato de base que sustente a narrativa ou outro com seu celular mostra a mentira dando uma de influencer do bairro. Nesses casos, a mentira se esgota rapidamente na linha do tempo e vira um entulho . Como apontam pesquisadores como Wardle e Derakhshan (2017), o ciclo da desinformação espontânea é mais frágil porque não tem alicerce sólido.
O problema grave está nas fake news profissionais: planejadas, roteirizadas e lançadas com precisão estratégica. As redes sociais não são a origem, mas o motor. São a engrenagem que sustenta a difusão. Há muito tempo, os sites de notícias de nomes consolidados, vindos de uma era analógica, usam as redes sociais como um trampolim para serem lidos. O outro componente dessa máquina é mais sutil e mais poderoso: a legitimação cruzada entre veículos de credibilidade. Um jornal lança a falsa narrativa com base em um fato distorcido. Outros veículos, em nome da confiança mútua, replicam. A marca empresta prestígio à mentira — e o público acredita, afinal, são “grandes nomes da imprensa”.
Um exemplo emblemático foi o caso da repórter Judith Miller, do The New York Times, que publicou, em 2003, reportagens sobre armas de destruição em massa no Iraque. A narrativa — com fontes do alto escalão político — foi adotada por outros veículos como CNN, The Washington Post e até BBC. Anos depois, soube-se que tudo era falso. Mas o estrago já estava feito: opinião pública moldada, guerra iniciada, reputações manchadas.
Diante desse cenário, surge uma nova distorção: a narrativa de que é preciso controlar as redes sociais para combater as fake news. Essa ideia, vendida como solução, é na verdade mais uma engrenagem da própria desinformação profissional. Colocar o poder de definir o que é verdade ou mentira nas mãos de grupos, conselhos ou “autoridades verificadoras” significa, na prática, centralizar o discurso e criminalizar o cidadão comum, que, ao compartilhar uma informação errada, quase sempre de forma inocente e passageira, pode acabar enquadrado como criminoso digital.
Enquanto isso, as fake news realmente perigosas — aquelas que interferem em eleições, moldam a opinião pública, manipulam mercados e protegem interesses privados — continuam sendo produzidas por estruturas que não serão afetadas por esse tipo de controle. Ao contrário: muitas vezes, são elas que redigem as regras.
Como adverte o filósofo Byung-Chul Han, “na sociedade da transparência, o que reina não é a verdade, mas a verossimilhança.” E a verossimilhança vendida por uma marca confiável é o combustível perfeito para a mentira que se instala no imaginário coletivo.
No fim, controlar a mentira virou uma forma de controlar a narrativa. E isso, ironicamente, pode ser a maior fake news de todas.
Curiosidade
A jornalista Judith Miller , escreveu sobre sua contribuição à indústria das fake news no poder. Por isso, o jornalista deve adotar práticas seguras que garantam a credibilidade da notícia e de sua reputação. Certamente, esses dois elementos são mais importantes para a sociedade do que uma opinião política baseada na ideologia pessoal do profissional sobre o fato.”
