A TV 3.0 no Brasil vai parar a queda sistemática da audiência? “As emissoras de TV aberta — que transmitem sinal gratuito e linear — apostam na TV 3.0 para conter a queda de audiência diante do avanço do streaming e plataformas digitais, que oferecem conteúdo sob demanda e não linear.”
Com promessas de som e imagem em altíssima qualidade, interatividade e integração com a internet, essa nova geração tecnológica traz também desafios concretos relacionados à infraestrutura, à inclusão tecnológica e à definição de modelos de negócio sustentáveis.
O que é a TV 3.0?
A TV 3.0 é a evolução da televisão digital no Brasil, baseada em padrões internacionais como o DVB-T2, uso do codec HEVC (H.265), suporte a HDR, áudio imersivo e um middleware moderno baseado em HTML5, que viabiliza interatividade via internet (canal de retorno). Em teoria, é um grande salto técnico. Na prática, enfrenta barreiras consideráveis.
Barreiras tecnológicas para adesão em massa
A adoção da TV 3.0 exige um novo parque tecnológico:
- Aparelhos compatíveis: apenas televisores fabricados a partir de 2024, com suporte específico, terão acesso pleno.
- Smart TVs atuais: modelos recentes com padrão ISDB-Tb (TV digital atual) não serão compatíveis sem adaptadores.
- Set-top boxes específicos: ainda não disponíveis em escala, seriam necessários para garantir acesso à população com televisores antigos.
Com cerca de 100 milhões de televisores ativos no Brasil, a substituição ou adaptação desses aparelhos representa um entrave socioeconômico relevante, especialmente em regiões de menor acesso tecnológico.
Alcance territorial e limitações de infraestrutura
A TV 3.0 continuará sendo distribuída por sinal digital terrestre — o que, por um lado, mantém maior alcance geográfico do que a internet, mas, por outro, exige atualização cara e complexa das torres e retransmissoras. Isso impõe um processo lento e custoso, sobretudo para emissoras locais.
Modelo de negócio e controle público
Outro fator que impõe limites à agilidade da TV 3.0 é seu modelo centralizado e regulado por órgãos públicos. Até agora, faltam definições claras sobre:
- Publicidade segmentada
- Venda direta de produtos
- Interatividade em tempo real
- Aferição de audiência com precisão
Sem um ecossistema competitivo e inovador, a TV 3.0 tende a operar com menor dinamismo frente ao modelo digital.
Internet como meio mais flexível
Diante dessas limitações, a internet desponta como uma plataforma mais “libertadora”, permitindo que emissoras explorem:
- Menus interativos e experiências personalizadas
- Comentários em tempo real e comércio eletrônico integrado
- Playlists e programação sob demanda
- Métricas precisas de audiência e campanhas segmentadas
Essas possibilidades apontam para um cenário em que a disputa entre TV e internet não ocorre em condições de equidade. A internet agrega inovação com rapidez, enquanto a TV linear avança em ritmo mais lento, mesmo com a chegada da TV 3.0.
O conteúdo como diferencial estratégico
Apesar dos avanços técnicos, é o conteúdo que fideliza. “O declínio da audiência da TV aberta e linear, que transmite grade fixa, não é apenas fruto da transformação digital, mas também da perda da conexão emocional com o público.
Programas icônicos, novelas marcantes e transmissões que uniam famílias foram substituídos por uma grade que aboliu a convivência de gerações em torno de um conteúdo. A falta de produções que capaz de conectar faixas etárias de telespectador diferentes no mesmo conteúdo não introduz memória afetiva e identidade coletiva afasta a nova geração do hábito televisivo.
Para reconquistar relevância, a TV aberta pode:
- Apostar em narrativas envolventes e com valor cultural
- Garantir laicidade ideológica nos conteúdos
- Criar modelos reais de interatividade
- Investir em formatos híbridos (fixos e sob demanda)
- Valorizar comunidades em torno de histórias, e não apenas volume de audiência
A TV 3.0 representa uma evolução técnica significativa. Mas, se considerarmos a agilidade do meio internet em incorporar inovações, a competição entre radiodifusão e streaming ainda é desigual. Sem uma estratégia de inclusão tecnológica, abertura para modelos de negócio flexíveis e reconexão com a dimensão emocional do conteúdo, a adesão à nova TV será lenta e restrita.
O futuro da TV linear dependerá não só de saber explorar cada ambiente tecnológico, e voltar a ocupar um lugar afetivo no cotidiano das pessoas. É interessante que um meio que vive da comunicação persuasiva não perceber que deixou de produzir conteúdo com esse poder.
As diferenças e completudes
TV linear é o formato tradicional de programação com horários fixos, sequência de programas definida pela emissora, sem controle do usuário (pode ser aberta ou paga).
TV aberta é o modelo gratuito e transmitido por ondas terrestres (como Globo, SBT, Record no Brasil). Ela é um subset da TV linear, mas nem toda TV linear é aberta (existe TV por assinatura linear, por exemplo).
A TV digital aberta no Brasil, tanto no modelo atual (ISDB-Tb) quanto na futura TV 3.0, é transmitida por ondas de radiodifusão terrestre, ou seja, sinal digital transmitido por torres e retransmissores, captado por antenas UHF nos televisores.
Isso a diferencia da TV por assinatura (via cabo, satélite ou IPTV) e do streaming (via internet). É um sistema gratuito, de acesso universal, que depende da infraestrutura de transmissão e recepção — e não de conexão à internet, embora a TV 3.0 adicione interatividade via internet (canal de retorno).
Referências:
- Fórum do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD). Documentações técnicas da Fase 3.
- Kantar IBOPE Media. Inside Video Brasil 2024.
- EBC. “TV 3.0: nova geração da televisão aberta brasileira”. 2023.
